Houve um tempo em que as civilizações na terra eram estratificadas, divididas em castas, acreditava-se que cada homem, por natureza, nascia onde deveria nascer, e assim deveria permanecer por toda a vida. A igreja católica fundamentou a escravidão dizendo que era da natureza do negro ser escravo, porque este já nascia assim! Na Alemanha nazista, os alemães mediam os narizes e os lábios do povo para identificar aqueles que, para eles, não tinham a natureza pura, aqueles que não eram arianos. Na descrição de Nina Rodrigues sobre criminosos caracterizava justamente os traços comuns aos negros como potenciais infratores por natureza. E se um negro e um branco estivessem diante do delegado, bastava o delegado acusar ao negro, pois, diante a descrição do renomado médico, era aquele que se enquadraria no perfil citado, mesmo que não houvesse prova alguma contra ele. Os deterministas dividiam a intelectualidade e a civilidade entre o hemisfério e o clima. Norte, os civilizados, Sul, os subdesenvolvidos.
Tudo isso citado acima faz parte de uma pseudociência burra, lotada de preconceitos, empirista e, graça a deus, superada em quase sua totalidade.
Temos exemplos, que hoje, pode nos fazer rir, mas não foge muito a nossa atual realidade. Observe esse auto de prisão do RJ de 1924: “é elle portador de estygmas phisicos de degeneração bem pronunciados,(...) Nem mesmo lhe faltam as tatuagens, estygmas phisicos adquirido que, com freqüência aparecem nos degenerados e nos deliquentes.(bastos,2002; Nogueira,2002:99). Ou seja, o cidadão parece com o crime mesmo antes de cometê-lo. E o que mudou hoje? ... Não muita coisa! Temos nossas imagens pré-definidas de criminosos: os negros pobres de áreas periféricas, onde a atuação da polícia é de uma eficiência fenomenal, e a da justiça mais eficaz ainda, vendo que o número de prisões e internações de jovens em “hospitais-cadeias” quase que aumentaram que 400 por cento de 1990 pra cá. Será que nossos jovens se deliquinram ou enlouqueceram em bando de uma hora pra outra? Ou será que vivemos num estado policialesco que demanda toda a sua força não em prol, mas contra determinada parcela da sociedade? A pena dada a um jovem de classe baixa envolvido com drogas, hoje, é muito mais dura que a uma pena dada a um adulto praticante do mesmo crime, mesmo quando a infração daquele jovem é de pouco poder ofensivo. Ainda sim, diferentemente do que o nobre amigo Aílton, a quem prezo muito, citou em sua máxima que “nenhum homem se reabilita”, os jovens que se encerram nesses programas chegam com a esperança de mudar, entrar numa escola ou conseguir um emprego, porém, a realidade que se deparam é totalmente aposta, seja dentro do encarceramento, ou na volta às ruas, onde acabam reincidindo na vida criminosa. Livra-se aqueles que contam com acompanhamento de ongs dedicadas ao assunto que mostram imensa relevância no processo de reabilitação de muitos jovens da classe baixa e destroem a máxima determinista do nobre amigo.
Não vou me alongar mais por que este é assunto pra muitas páginas. Nem se trata aqui de defesa da criminalidade. Mas é preciso saber que o HOMEM É FRUTO DO MEIO, SENDO MOLDADO POR ELE, vivemos numa sociedade excludente, banalizamos a pobreza e a miséria. Num país que tem duas vezes mais seguranças patrimoniais que policiais falta ao cidadão moral pra poder definir alguém como marginal não reabilitável. Nossa apatia cria o estado de medo em que vivemos, e não podemos deixar que nossos medos continue traçando o futuro e o destino de milhares de pessoas. Afinal, as cadeias estão lotadas é de negros, pobres, e semi-analfabetizados, será que é da natureza do negro a preguiça para com o estudo e o desleixo para com as normas sociais, ou será que somos nós, os ditos homens de bens, omissos, que somos desleixados. Será que nos países de civilizados a “natureza” do homem o fez assim por sua geografia?
É muito mais fácil responsabilizar a natureza do cara que ta preso, atribuindo-lhe um estigma do que reconhecer nossa parcela de erro!
Marcel Evangelista